SEMEANDO UMA NOVA TRIBO HUMANA
Amigos
Estamos nos aproximando do 3º encontro da Oficina Literária, que ocorrerá no dia 26/05 às 16h no Instituto Arapoty.
Conto com a presença de vocês. Aqueles que ainda não estiveram na oficina, não percam tempo, compareçam e participem de nossas discussões no facebook: http://www.facebook.com/oficinaliterariaarapoty2012
Aproveito para lembrá-los que no nosso próximo encontro analisaremos as marcas de exclusão literária em obras clássicas, para a academia de hoje.
Sendo assim, estou enviando, em arquivo anexo, algumas poesias de Safo ( safo.docx) e o livro Bom Crioulo (…
ContinuarPostado por Ari Silva Mascarenhas de Campos em 14 maio 2012 às 12:54
O KWARYP é uma cerimônia em homenagem aos mortos, realizada pelos povos indígenas do Alto Xingu. De fato, é a etapa final de uma sequência de ritos iniciados após o falecimento de uma pessoa e marca o término do luto dos parentes. Uma de suas características marcantes é a rememoração que faz do ato primordial da criação da humanidade, obra da divindade mítica Mavutsinin.
Diz a tradição que, em tempos recuados, o Kwaryp foi realizado em Morená, terra situada na confluência dos rios Ronuro, Batovi e Culuene, local da morada de Mavutsinin. Com o intuito de povoar o mundo, Mavutsinin cortou troncos de árvore, fincou-os no chão, pintou-os e, finalmente, enfeitou-os com colares, braçadeiras de penas de arara, cocares e fios de algodão. Ao som de maracás, duas cutias entoaram cantos que se estenderam por longas horas, até que, pouco a pouco, os troncos foram ganhando forma: primeiro surgiram os braços, depois a cabeça, o tronco, pernas e, enfim, todo o corpo dos novos seres.
A criação, porém, estava incompleta. Era preciso dar a cada criatura uma identidade própria. Mavutsinin mostrou-lhes vários artefatos para que escolhessem o que mais os agradassem. Os Kamaiurá, convocados em primeiro lugar, escolheram o arco preto; os Kuikuro, o colar de lâminas de concha; os Kalapalo, o cinto de discos de caramujo; os Waurá, a panela de cerâmica; até que todos, embora semelhantes na origem, pudessem ostentar peculiaridades e diferenças. Foram distribuídos pelas cercanias, exceto o "não índio" que, portando a espingarda que escolhera, foi mandado para bem longe.
Seria então a festa do Kwaryp uma louvação à vida? Num certo sentido, sim. Bastaria entender o término do luto como sinal da retomada da existência cotidiana na aldeia, em que o pesar cede lugar à alegria do viver.
Uma outra narrativa mítica, porém, que trata do primeiro Kwaryp realizado por Mavutsinin, amplia o sentido da cerimônia. Com a intenção de devolver a vida aos mortos, Mavutsinin fincou os troncos de madeira na aldeia e os pintou e adornou. Após muitas horas de canto, ele mandou que todos se fechassem em suas casas, permanecendo apenas ele junto aos troncos que começaram então a ganhar forma humana. Quando a transformação se completou, Mavutsinin mandou que os homens saíssem das casas para saudar os renascidos, expressando alegria e felicidade. Apenas os que tivessem tido relação sexual durante a noite não deveriam deixar suas casas para participar da comemoração. Somente um homem permaneceu dentro da casa, mas, vencido pela curiosidade, saiu para apreciar o espetáculo. No mesmo instante os ressuscitados voltaram a ser troncos de madeira.
Mavutsinin lamentou que seu intento de dar vida aos mortos tivesse sido frustrado pela transgressão ritual e lançou uma imprecação: "De agora em diante, os mortos não conhecerão uma nova vida por ocasião da cerimônia do Kwaryp", nela serão apenas relembrados e homenageados.
Do ponto de vista etnológico, o ciclo de rituais que culmina com a realização do Kwaryp tem um significado ainda mais amplo.
A região dos formadores do Rio Xingu é conhecida por reunir povos falantes de diversas línguas (tupi, aruak, karib e a língua isolada trumai) que compartilham um estilo de vida bastante semelhante.1 Os principais eventos responsáveis pela interação entre diferentes aldeias são a cerimônia do Kwaryp, realizada em homenagem aos mortos, do Jawari, competição esportiva de arremesso de flechas, e a troca de bens denominada Moitará.
O prolongado contato entre as comunidades deve ter sido responsável pelo estabelecimento de uma vizinhança amistosa, mas também fez que os diferentes povos alimentassem pretensões de alcançar hegemonia na região. Coexistem assim entre eles tanto um relacionamento amigável como formas de comportamento que revelam competição e oposição. A maioria dos estudos etnológicos sobre a relação dos kamaiurás com povos vizinhos destaca a unidade alto-xinguana e ao mesmo tempo registra o sentimento de desconfiança e rivalidade que permeia seus vínculos (cf. Galvão, 1979a, 1979b, 1979c; Agostinho, 1974; Schaden, 1964; Oberg, 1956).
Com o objetivo de esclarecer os momentos em que tais atitudes opostas se manifestam, a intenção deste texto é descrever a cerimônia do Kwaryp,2 ocasião cerimonial única que reúne a maioria dos povos da região em uma aldeia anfitriã, e focalizar os principais procedimentos envolvidos na realização da festa, destacando as práticas voltadas tanto para reafirmar a coesão social como para expressar a ambiguidade das relações entre as diferentes aldeias. Solidariedade e hostilidade se alternam na configuração do universo alto-xinguano e revelam a complexa rede política que o envolve.
Os dados aqui apresentados foram coletados durante várias estadas na aldeia Kamaiurá: agosto e setembro de 2003, agosto de 2004, julho de 2005, 2006 e 2007, quando assistimos à realização de duas cerimônias do Kwaryp (2004 e 2007). Em agosto de 2003, acompanhamos os Kamaiurá que participaram do Kwaryp na aldeia Iawalapiti, e em julho de 2006 fomos com os Kamaiurá assistir à festa do Jawari na aldeia Waurá. Em agosto de 2006 fomos com os Kamaiurá participar do Kwaryp na aldeia Kalapalo. Além de observar os diversos rituais, registramos dados obtidos por meio de vídeo, entrevistas informais, semiestruturadas, depoimentos gravados e acompanhamos sistematicamente as relações entre anfitriões e convidados.
O foco da nossa análise é a aldeia Kamaiurá de Ipavu. Seus moradores se distribuem em 15 imponentes casas situadas ao redor de um amplo pátio circular. Cada casa, erguida pela iniciativa de um homem que dela se torna chefe, reúne pessoas unidas por parentesco, formando uma unidade de produção econômica. Quanto maior o número de moradores, maior tende a ser o prestígio de seu chefe que pode assim contar com uma base de apoio mais ampla.
A rede de relações que organiza a vida comunitária tem como principal sustentáculo o parentesco. Grupos unidos em torno de um homem e sua prole buscam selar aliança entre si por meio do casamento, gerando um novo conjunto de parentes por afinidade, que em alguns casos se sobrepõe a laços consanguíneos. O casamento preferencial é entre primos cruzados (atywahap) (filho ou filha do irmão da mãe ou filho ou filha da irmã do pai), embora outras combinações sejam possíveis, e até desejáveis, dependendo do valor estratégico da aliança. Tal procedimento cria vínculos entre famílias da própria comunidade e também entre diferentes aldeias e povos da região dos formadores do Xingu, em especial.
Descrita dessa forma, a rede de parentesco que envolve os moradores de Ipavu não registra um aspecto importante das relações e que diz respeito à atitude de desconfiança, de suspeita e até mesmo de intolerância velada que recai sobre parentes afins.3 Assim, a necessidade de selar aliança e ter parentes em outras casas ou aldeias institui novos compromissos e deveres, mas gera simultaneamente desconfiança. Embora a etiqueta tradicional bloqueie a explicitação pública desses sentimentos, eles são amplamente revelados em círculos mais íntimos de consanguíneos. Acusações referentes à quebra dos deveres do genro em relação ao sogro, à sovinice da segunda esposa do pai, até outras mais graves como a de procedimentos mágicos de caráter negativo envolvendo genros e sogro não são incomuns. O potencial desagregador dessa animosidade é na maioria das vezes abafado pelo interesse político em preservar a aliança, que conta com uma poderosa aliada: a etiqueta que rege a conduta e formaliza as relações. Assim, a relativa serenidade da vida comunitária é fruto da contenção de sentimentos potencialmente antissociais. O Kamaiurá abdica de uma espontaneidade ingênua a favor de um desempenho diplomático ditado por interesses políticos de maior grandeza.
Tanto nos rituais e cerimônias como na rotina diária é grande a circulação de bens e serviços entre famílias, entre moradores de diferentes casas e aldeias. Circulam alimentos, objetos, convites, prestação de serviço, que, aceitos, devem ser retribuídos em algum momento futuro. A doação reforça vínculos sociais e confere prestígio ao doador, pois a generosidade é altamente valorizada pela etiqueta kamaiurá. Rejeitar uma oferta ou deixar de retribuir são atos antissociais que conduzem à animosidade e podem ocasionar o rompimento de relações.
Na esfera política, não há concentração de poder, embora algumas pessoas se destaquem pela capacidade de exercer algum tipo de controle e liderança dentro da comunidade. Os chefes de domicílios, os grandes pajés, os conhecedores da tradição, os especialistas no manuseio de ervas medicinais têm maior visibilidade social, e nos limites do seu campo específico de atuação exercem uma autoridade legítima. Eles também participam de um conselho mais amplo de homens, tradicionalmente denominado "roda dos fumantes", que se reúne para debater questões que afetam o conjunto da vida social e cujas decisões são tomadas por consenso. Assim, pode-se dizer que cada morador da aldeia tem em mãos uma pequena parcela de poder, incluindo as mulheres que fazem chegar sua opinião à "roda dos fumantes" pela voz do pai, do marido, do irmão ou do filho.
Há na comunidade diversos níveis de distinção social, e a mais visível é entre os descendentes de famílias de chefes, homens que ostentam o status hereditário de Morerekwat e mulheres Nuitu, e as pessoas comuns denominadas kamara. Na vida diária há pouca diferença entre eles, pois maior prestígio não acarreta privilégios materiais significativos e eventuais desníveis tendem a ser minorados pela redistribuição de bens, pela prática da dádiva. Mas é na esfera cerimonial que a diferença entre uns e outros se torna bastante visível, marcando a distância que os separa. Por ocasião da morte, por exemplo, apenas os morerekwat e as nuitu têm direito à realização do Kwaryp, os demais podem aproveitar a festa para homenagear seus mortos. Mas não havendo o falecimento de um morerekwat ou uma nuitu, não há possibilidade de ocorrer a cerimônia do Kwaryp.
A mitologia kamaiurá registra uma versão da criação dos humanos por Mavutsinin, na qual, após a transformação dos troncos de madeira em gente e em meio à alegria geral, os peixes deixaram a água e foram para a praia de Morená festejar o evento. A onça correu para lá e começou a lutar com os peixes. Mavutsinin transformou todos em índios kamara, fixando assim a diferença entre eles e as criaturas surgidas dos troncos, ligadas à sua própria linhagem (Villas Bôas, 2000, p.77-8). Por esse motivo, a festa do Kwaryp só ocorre quando do falecimento de descendentes de Mavutsinin, dizem os Kamaiurá. Na aldeia das almas, situada além da região de Morená, mantém-se a hierarquia entre os kamaras e os morerekwat e nuitu: as almas destes últimos se alimentam de boa comida, peixe e beiju, enquanto as outras, de grilo e barata, acreditando ser peixe, completam os narradores da aldeia.
Questões importantes da comunidade, discutidas e decididas na "roda dos fumantes", têm sua execução confiada ao morerekwat que ocupa o cargo de gestor da vida política ou chefe da aldeia, que é também seu representante diante dos outros povos e aldeias.4 O cargo é hereditário e, até onde a memória dos mais velhos alcança, sua transmissão sempre foi alvo de contestação. Segundo eles, os grandes líderes do passado tinham uma prole grande, gerada por muitas esposas simultâneas ou sucessivas, o que ocasionava disputa dos descendentes ao cargo. É possível também que, em outros tempos, houvesse várias aldeias kamaiurá, e que a fusão em uma só tenha estimulado maior competição entre os morerekwat de diferentes famílias de chefes. Mas as tensões geradas pela competição são conduzidas com prudência e contornadas por um comportamento cauteloso, regulado e contido pelo interesse em manter alianças. São regras que impõem um relacionamento respeitoso e formalizado entre parentes afins e também entre os líderes, criando um importante escudo protetor, tanto nas relações cotidianas como nas cerimoniais.
Esse tipo de etiqueta organiza também as relações entre os diferentes povos que vivem na região do Alto Xingu, impedindo que aflorem as hostilidades que mutuamente alimentam. Outros recursos que ajudam a esvaziar as tensões intergrupais, já registrados por estudiosos, são as competições esportivas de arremesso de flechas entre competidores de povos diferentes, realizadas na cerimônia do Jawari, e a luta huka huka, que ocorre na etapa final do Kwaryp, entre lutadores de várias aldeias. Tanto a etiqueta como o esporte são assim mecanismos importantes que atuam na neutralização dos antagonismos nascidos do convívio social.
Antes de descrever os ritos envolvidos na festa do Kwaryp, é útil nomear suas diversas fases, cada qual instaurando sentimentos variados e exigindo dos protagonistas diferentes tipos de decisões:
A primeira fase tem início logo após o falecimento da pessoa e trata especialmente dos cuidados relativos ao corpo do morto e seu sepultamento.
A segunda fase ocorre várias semanas após a morte, quando os enlutados são instados a definir se desejam ou não o prosseguimento dos rituais. A decisão tem como ponto central a construção de uma cerca baixa de madeira (apenap) ao redor da sepultura e o consentimento significa que os enlutados concordam com a futura realização da festa do Kwaryp.
A terceira e última fase tem início quando as Plêiades podem ser vistas na linha do horizonte, anunciando tempo seco, dias quentes, noites frescas e águas propícias à pesca. Em algum momento dos meses de julho, agosto ou setembro intensificam-se os preparativos para a cerimônia do Kwaryp.
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O Instituto Arapoty é uma organização social, cuja sede situa-se no bairro de Itaquaciara, em Itapecerica da Serra, desde 1999. Atua em diversos estados do Brasil, e também no exterior, a partir de um colegiado na França. Criou uma tecnologia social para o desenvolvimento de projetos culturais e pedagógicos fundamentados nos saberes ancestrais do Brasil e inspirados em uma relação de respeito e integração á natureza. Tais projetos visam diminuir concepções distorcidas das raízes culturais que formaram a nação brasileira e colaborar para a construção de uma sociedade mais humana, mais justa socialmente e mais equilibrada ecologicamente. O Instituto Arapoty, pelo desenvolvimento dessa tecnologia social inovadora, empreendedora e que caminha em direção á idéia de um mundo melhor, recebeu em 2005 um prêmio de reconhecimento internacional de empreendedorismo social de uma das maiores organizações de apoio ao terceiro setor do mundo, a Ashoka Empreendedores Sociais.
O Instituto Arapoty já colaborou, através da disseminação de sua tecnologia social, na fundação do Centro de Saberes e Cuidados Ambientais da Bacia do Prata, que reúne cinco países da América da Sul e é promovido por Itaipu binacional. Fundamentou o curso Escola de Guerreiros Sem Armas, desenvolvido pelo Instituto Elos, em Santos, que atua no desenvolvimento do protagonismo juvenil. E seus princípios apoiaram também na criação do Grupo Dança Vida, de Ribeirão Preto, que atua na re-socialização e profissionalização de jovens pela arte da dança.
Também já participou de seminários promovidos pela UNESCO abordando pedagogias transformadoras e é parceira da Fundacion France Libertes, dirigida por Danielle Mitterrand, no programa Mensageiros das Águas, de consciência ecológica e social.
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